MEMORANDO
1. Foi a partir das experiências de emissão-rádio dos dois radiófilos angrenses: Belmiro da Silva Rocha (emigrado para o Canadá) e Fausto Rodrigues Cristovam (angrense), que em 12 de Outubro de 1946 se fundou “Uma Sociedade de Amadores de Telegrafia Sem Fios, com o fim de construir uma Emissora de Radiodifusão nesta cidade. Esta Emissora destinar-se-á à propaganda das terras açorianas”. Assim se lê na Acta da altura.
À ideia da criação em Angra de um posto emissor de rádio logo aderiram uns tantos – os doze fundadores do Rádio Clube de Angra – que desde a primeira hora tiveram o apoio espontâneo e pronto das autoridades administrativas, dos intelectuais e artistas angrenses e da população em geral.
Tanto assim que por Alvará de 3 de Abril de 1947 do Governo Civil do Distrito Autónomo de Angra do Heroísmo eram aprovados os primeiros Estatutos do Rádio Clube de Angra, denominação sob que foi “constituída, por tempo ilimitado, uma Associação de Amadores de T.S.F. destinada a:
2. Rádio Clube de Angra principiou emitindo apenas algumas horas por dia e alguns dias por semana.
Mas pouco a pouco foram-se alargando os períodos de funcionamento diário e semanal. A tal ponto que, passada uma escassa dúzia de anos, o RCA já estava no ar 9 horas nos dias úteis, em três períodos de emissão – manhã, tarde e noite – e 15 horas aos domingos e feriados.
Do mesmo passo Rádio Clube de Angra passou de um emissor artesanal de Onda Média de 100 Watts para um “Gates” de 320 em 1954 e um “Fritz Bauer” de 1 Kwt em 1958. Só nunca foi possível, antes do “25 de Abril”, conseguir autorização para um emissor de 10 Kwts – velha político-administrativa da altura, inclusive o Governador Civil Teotónio Machado Pires e o deputado à Assembleia Nacional Manuel Amorim de Sousa Meneses. Mesmo assim, Rádio Clube de Angra, cobrindo o arquipélago, e unindo todas as suas ilhas e população através da informação geral e regional, da cultura, da musica, do teatro-radiofónico, do lazer, do desporto, da religião, e até da partilha na dor e da solidariedade em momentos de catástrofe e aflição, não só estreitou distâncias e aproximou pessoas e comunidades, como abriu cabocos e lançou os primeiros alicerces da ideia da unidade e da identidade regional.
Se o Tenente-Coronel José Agostinho, um dos mais ilustres, devotados e constantes colaboradores do Rádio Clube de Angra lhe chamou em 4 de Janeiro de 1951, no “Diário Insular”, “A Voz da Terceira”, em 1965 era o deputado Manuel Amorim Sousa Meneses a proclamá-lo na Assembleia Nacional como “Voz Portuguesa no Atlântico”.
Por ocasião do 25º Aniversário “A União” atribuir-lhe-ia o título de – “Legenda de Fé, de Valor e de Patriotismo”. Passados 3 anos, a imprensa faialense havia de classificar o Rádio Clube de Angra como a “Voz da Promoção Açoriana”. E assim foi sempre e é, de facto, o Rádio Clube de Angra.
3. Inicialmente, Rádio Clube de Angra pouco mais além se ouvia que na cidade de Angra e na Ilha Terceira. Era “A Voz da Terceira”.
Mas, a partir de 1954, com o aumento de potência e a construção de estúdios e antenas na Ladeira Branca, abraçou, primeiro, todas as ilhas do Grupo Central; depois penetrou em São Miguel e em Santa Maria, alcançou as Flores e o Corvo, chegando mesmo a ouvir-se na Dinamarca e na Suécia (1956), além de na Madeira e no Continente (Estoril e Coimbra), na Noruega, no Golfo do México e até na Nova Zelândia (1967).
Era, sem dúvida, a “Voz Portuguesa no Atlântico”. Entretanto, como não havia outra rádio nos Açores, que o oficioso Emissor Regional dos Açores (a ouvir-se pouco e mal) e a emissora do Clube “Asas do Atlântico” (circunscrita a vários títulos), foi o Rádio Clube de Angra que manteve vivas e fluentes e ao alcance de todos os Açorianos, durante dezenas de anos a fio a mais diversificada informação, as culturas popular e erudita, as musicas clássica, ligeira e regional, o teatro como a palestra e a crónica, o desporto como a religião, constituindo-se aliás numa verdadeira escola de jornalismo e radiofonia.
Foi de facto pelo Rádio Clube de Angra que inicialmente passaram praticamente os melhores jornalistas e radialistas locais, como alguns actuais dos Açores e das Comunidades emigradas nos Estados Unidos e no Canadá. A informação chegava a Angra de todas as ilhas e daqui partia, via rádio, para todas as ilhas. Houve mesmo três momentos de catástrofe em que o Rádio Clube de Angra, à falta de serviço regional de protecção civil, desempenhou um papel de alto valor e mérito: por ocasião da erupção vulcânica dos Capelinhos (Setembro de 1957), que foi notícia durante um ano; por altura da crise sísmica de São Jorge (Fevereiro de 1964), em que, em menos de 24 horas e no início da que ficou designada por “Operação São Jorge”, Rádio Clube Angra conseguiu encontrar alojamento e transporte na Terceira para cerca de 1600 jorgenses evacuados à pressa daquela ilha por barcos estrangeiros. “Diário Insular” escreveria: “O serviço prestado pelo Rádio Clube de Angra nesta hora angustiosa que os Açores estão a viver pode classificar-se excepcional”. E, finalmente, por ocasião do Sismo de Janeiro de 1980, que ía arrasando Angra e a Ilha Terceira, como danificou gravemente S. Jorge e a Graciosa. Rádio Clube de Angra nessa altura, mesmo com a sua sede destruída, emitiu a tempo inteiro das suas instalações na Ladeira Branca. Em qualquer destes três momentos históricos e catastróficos o Rádio Clube de Angra foi mais órgão assistencial e “máquina de bem-fazer terceirense”, que propriamente órgão indiferentemente informativo.
Como a informação, assim a arte, a cultura, o desporto e a religião uniram através do Rádio Clube de Angra as nove Ilhas dos Açores, dando-lhes pela primeira vez na História o sentimento e a vivência de constituírem uma só e única região. Não houve artista da música clássica e ligeira e do teatro que por aqui passasse que o Rádio Clube de Angra não lhe levasse a arte, o som e a voz aos quatro cantos dos Açores.
O mesmo se diga das orquestras e grupos teatrais. Não houve também iniciativa e manifestação cultural de monta – recordem-se as inesquecíveis Semanas de Estudo dos Açores (1961-1966) fundamentais para o cimento da ideia e consciência de região e da aspiração de um novo sistema autonómico, assim como já antes (1954) a “Conferência Insular Açoriana” – que, onde quer que se celebrassem: Angra, Horta ou Ponta Delgada, não chegassem via Rádio Clube de Angra, a todos as demais ilhas e povoações dos Açores.
Rádio Clube de Angra foi quem primeiro uniu os Açorianos pelo desporto, transmitindo em 1952 o desafio Sporting da Horta – Lusitânia e por daí por diante todos os torneios e encontros das selecções distritais. Rádio Clube de Angra foi também a primeira estação de rádio nos Açores a transmitir uma cerimónia religiosa – a Missa da Natividade em 1952. Depois, seguir-se-ia até ao dia de hoje a transmissão aos Domingos, da Igreja da Sé, da Missa dos Doentes. Rádio Clube de Angra foi quem criou em 1956 a “Voz da Saudade” – um programa de mensagens destinadas aos Açorianos em serviço no Estado Português da Índia, como havia de, a partir de 1961, enviar “Mensagens de Saudade” para os soldados das ilhas servindo no Ultramar, e em 1963 a “Hora da Saudade”, constituída por mensagens dirigidas a Angola.
Do mesmo passo e por essa altura iniciou o Rádio Clube de Angra o hábito de salutar de, periodicamente, sobretudo por alturas festivas: Natal, Páscoa, espírito Santo, Dia de Portugal, Festas da Cidade… unir as comunidades açorianas aqui residentes e as de além Atlântico, no Brasil, nos Estados Unidos e Canadá.
Foi também o Rádio Clube de Angra que primeiro procedeu à gravação das modas regionais (Graciosa), quando a musica e o folclore regionais pareciam condenados à extinção e desaparecimento total.
Desde início Rádio Clube de Angra dedicou um bom espaço da sua programação à difusão da musica regional – ainda hoje – o seu sinal de abertura é um tema da musica regional terceirense - , nomeadamente às interpretações do famoso cantador popular Zé da Lata e à recolha do professor Artur Santos.
E não será mesmo exagero afirmar que em boa parte se deve à acção do Rádio Clube de Angra a revivescência da musica popular açoriana e a criação de grupos folclóricos que a tem cultivado e coreografado. Ademais. E civicamente falando, foi Rádio Clube de Angra o paladino de muitas e boas causas, entre as quais importa recordar a da passagem da TAP pelas Lajes.
Daí os justos títulos de “Legenda de Fé, de Valor e de Patriotismo”, como o de “Voz da Promoção Açoriana”.
Em 23 de Fevereiro de 1973 o Presidente da Republica e Grão-Mestre das Ordens Portuguesas conferiu ao Rádio Clube de Angra o título de Membro Honorário da Ordem de Benemerência.
4. No “25 de Abril”, Rádio Clube de Angra não ficou imune aos extremos e exageros da altura. Mas a força do civismo, o entranhado apreço e a indesmentível dedicação da maioria por esta estação emissora, acabaram por prevalecer, repondo a normalidade, se bem que entre por muitas feridas e sofrimentos humanos, como algumas ruínas e prejuízos materiais.
Pela resolução nº 83/82, de 25 de Fevereiro, do Governo Regional dos Açores, Rádio Clube de Angra é declarado “pessoa colectiva de utilidade pública”. Convém transcrever parte dessa Resolução.
Depois de historiar os primordiais de Rádio Clube de Angra com a transcrição de parte da Acta de 12 de Outubro de 1945 que marca a fundação da “Sociedade de Amadores de Telegrafia Sem Fios” que lhe deu origem, pode ler-se: “Esta louvável actividade, originando um saudável intercâmbio cultural dos Açores com as nossas comunidades dispersas pelo mundo, tem sido prosseguida com inegável esforço e espírito de sacrifício por parte desta Associação.
Não se poderá no entanto, esquecer ainda o papel primordial do Rádio Clube de Angra em situações de emergência, como as verificadas em 1964 com a crise sísmica de S. Jorge e, mais recentemente, com o sismo de 1 de Janeiro de 1980 que brutalmente atingiu as ilhas Terceira, Graciosa e S. Jorge. Nessas ocasiões dramáticas ficou bem vincada a abnegação e o verdadeiro espírito de servir que caracterizam a Associação em causa, bem como a exemplar actividade em prol da comunidade desenvolvida pelos seus membros.
Assim.
E atendendo a que a declaração de utilidade publica visa, desde logo, contribuir para a valorização desta colectividade através de isenções fiscais e redução de certas taxas:
Nos termos do Decreto-Lei nº 460/77, de 7 de Novembro, e do Decreto-Lei nº 52/80, de 26 de Março, o Governo resolve o seguinte:
“DECLARA RÁDIO CLUBE DE ANGRA, COM SEDE EM ANGRA DO HEROÍSMO, PESSOA COLECTIVA DE UTILIDADE PÚBLICA”.
O mesmo Governo regional havia de suportar a construção da actual magnifica e ampla sede do Rádio Clube de Angra, inaugurada em 25 de Junho de 1987.
Em 6 de Março de 1989, por despacho conjunto do Secretário de Estado dos Transportes Exteriores e das Comunicações e Secretário de Estado Adjunto do Ministro Adjunto e da Juventude, era o Rádio Clube de Angra autorizado a emitir também em ondas métricas (frequência modulada), de modo que, actualmente, Rádio Clube de Angra está licenciado tanto em AM (Onda Média), na frequência de 909 KHz, como em FM (Ondas Métricas), na faixa de 101.1 e pela Internet.
Finalmente, como prova do “inegável esforço e espírito de sacrifício”, da “abnegação e o verdadeiro espírito de servir que caracterizam a Associação” (que criou o Rádio Clube de Angra) e ainda da “exemplar actividade em prol da comunidade desenvolvida pelos seus membros”, aí estão essas muitas centenas, se não milhares de sócios e cidadãos, de todas as classes e estratos sociais, de todos os graus e níveis de cultura, que durante estes “50 Anos do RCA”, o serviram com o melhor do seu talento e boa vontade, com prejuízo mesmo do seu tempo livre e por vezes da própria bolsa, seja como colaboradores (tantas vezes a título gratuito), seja como dirigentes (sempre de graça), tudo fazendo, esquecidos de si próprios, para que Rádio Clube de Angra continue vivendo e prosperando e os seus funcionários continuem tendo onde granjear o pão.
Angra do Heroísmo, 4 de Março de 1997
Inês Castro Deixar MensagemGosto imenso da vossa rádio. Angra é uma cidade belissima que oferece também encantos culturais. Gosto imenso da nova locutora, a Ana. ESpero que(...)